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Boletim de Histórias - número 19

Índice

1. Introdução: Wai'á - Festa Xavante
2. Preparação
3. Encontro com os Espíritos
4. Atualizações no site

 

1. Introdução

 

Os índios Xavantes, do Mato Grosso, receberam uma boa notícia nos primeiros dias de fevereiro/2007.

O juiz José Pires da Cunha, em uma decisão judicial, reconheceu uma área do nordeste do estado do Mato Grosso como território tradicional dos Xavantes. Em sua sentença, ele determinou que os invasores da área - posseiros e fazendeiros não-indígenas - devem se retirar dela para que os índios voltem a morar neste local. Os Xavantes chamam esta área de Marãiwatséde, ou seja, "Mata Bonita" em sua língua.

É épica a história dos Xavantes de Marãiwatséde. Envolve o rapto dos índios na década de 60, a venda de suas terras por políticos, anos de exílio em outras aldeias, a morte de crianças Xavantes no processo de retomada e a expectativa atual da volta ao lar. A história ainda não acabou, pois os recuos dos políticos e do Poder Judiciário não são raros. Porém o momento atual é de comemoração. Os índios Xavantes merecem.


crianças do povo Xavante
(foto do livro "Xavante: Auwe Uptabi - Povo Autêntico",
de Bartolomeu Giaccaria e Adalberto Heide

 

Por isso, este boletim da Iandé fala um pouco sobre a maior festa do povo Xavante: o Wai'á.

Wai'á é um ritual coletivo dos homens Xavantes, que ocorre de quinze em quinze anos. É nele que cada homem desenvolve sua vocação espiritual. Após a cerimônia, os adultos tornam-se curadores, cantadores, intérpretes de sonhos, etc... conforme a determinação dos espíritos.

Para os que desejam saber mais sobre a história dos índios de Marãiwatséde, vale à pena ler a entrevista que o líder Xavante Paradzané, expulso de sua terra aos 8 anos e que agora retorna a ela já adulto, concedeu ao portal 24Horas News. Está no endereço http://www.24horasnews.com.br/index.php?mat=205656

 

 

 

2. Preparação

 

O Wai'á consiste em uma série de ritos onde os homens Xavantes aprendem a se comunicar com os espíritos, através de cantos e danças.

A preparação para o ritual é bastante penosa. Durante um mês, por todos os dias, os meninos com idades entre 5 e 20 anos - aqueles que participam do Wai'á pela primeira vez - permanecem todo o tempo no pátio central da aldeia, sob o sol. Neste período eles também dormem ao relento e não podem tomar banho. Além disso, esses jovens que se iniciam no ritual do Wai'á só podem comer e beber água após o pôr do sol.

Ficar um dia inteiro exposto ao calor escaldante do Mato Grosso, sem beber água, é uma tarefa árdua. As mulheres Xavantes tentam levar cabaças cheias d'água para os jovens iniciandos, porém, os homens mais velhos - que já participaram do Wai'á anteriormente - ficam vigiando os "noviços" no pátio. Eles arrancam as cabaças com água das mulheres e derramam o líquido no chão, bem na frente dos jovens Xavantes.

Neste período, os homens mais velhos que já passaram pelo ritual, realizam uma dança chamada Datsiparabu. Dois índios apresentam uma coreografia enérgica, levantando e baixando os pés como se estivessem pisando nos pés de um inimigo. Eles dançam bem próximos a cada um dos iniciandos, representando um ataque simulado. Os jovens permanecem imóveis e de cabeça baixa, mesmo quando algum dançarino pisa - sem querer (?) - nos pés dos iniciandos. A dança do Datsiparabu é repetida várias vezes ao dia, durante toda a preparação do Wai'á.

Ao fim de um mês, os jovens iniciandos tomam banho e recebem uma pintura corporal específica. Os Xavantes estão prontos para encontrar os espíritos.


Colar Cerimonial Masculino, dos índios Xavante

 

 

3. Encontro com os Espíritos

 

Passado o período de preparação, os jovens Xavantes são levados por homens mais velhos - seus padrinhos - a um local afastado da aldeia. Lá os jovens encontrarão os Dañimite, espíritos benéficos.

Alguns adultos Xavantes, com vestes representando os espíritos Dañimite, esperam os iniciandos. Neste local, cada jovem receberá flechas cerimoniais que são as "armas dos espíritos bons". Quando voltam à aldeia, os mais velhos reunem todas as flechas em um único feixe e exibem-no em todas as casas. É um momento de alegria. As mulheres acreditam que essas flechas são feitas diretamente pelos índios Xavantes que nascerão no futuro.

Em outra ocasião do Wai'á, acontece um encontro diferente: os jovens Xavantes preparam-se para encarar Tsimihöpãri, o espírito que representa o mal absoluto.

Para compreender melhor todo o ritual do Wai'á, é preciso entender que os Xavantes temem o encontro com Tsimihöpãri, um espírito feroz e perigoso. Ao mesmo tempo, os índios desejam esse encontro, pois sabem que sairão dele com mais força.

Os Xavantes vão a um local afastado da aldeia e lá acontece uma batalha ritual contra Tsimihöpãri. O espírito é enterrado e os índios voltam com uma borduna de três pontas, símbolo desse sobrenatural.

O antropólogo David Maybury-Lewis estudou por anos os costumes dos Xavantes. Ele confessa em seus textos, que não alcançou uma compreensão de todos os significados presentes no ritual do Wai'á. O mesmo disseram outros não-índios que testemunharam esse ritual.

David Maybury-Lewis levantou a hipótese que o Wai'á é uma transferência de poder dos espíritos para os índios: o poder criativo e destruidor, que seria a essência da masculinidade para os Xavantes. Provavelmente é uma visão parcial do rito. Para a completa compreensão do Wai'á é necessário ser Xavante.

Esse boletim termina com as palavras que os Xavantes narradores de histórias costumam utilizar ao fim de suas narrativas: "Eu não contei tudo. Só um pouco."

 

 


capa do CD "Etenhiritipá", dos índios Xavantes

 

Para saber mais:
- "Xavante (Auwe Uptabi: Povo Autêntico)" ; de Bartolomeu Giaccaria e Adalberto Heide
- "A Sociedade Xavante" ; de David Maybury-Lewis
- "Raízes do Povo Xavante" ; de Rosa Gauditano
- "Meu avô A'uwê" ; de Pablo Nacer
- "Wamrêmé Za'ra: Mito e História do Povo Xavante" ; de Sereburã, Hipru, Rupawê, Serezabdi e Sereñimiorãmi

 


4. Atualizações no site Iandé

 

A-) Foi acrescentada um Maracá dos índios Xavante no Museu Virtual da loja Iandé.

 
 
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