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Boletim de Histórias - número 10

 

Índice

1. Introdução: Grafismos Indígenas
2. Significado dos Grafismos
3. Tuluperê: mito dos índios Wayana-Apalay
4. Kusiwa: a Arte dos índios Wajãpi
5. Atualizações no site

 

1. Introdução: Grafismos Indígenas

O grafismo dos grupos indígenas sempre chamou a atenção de cronistas e viajantes, desde a chegada dos primeiros europeus ao Brasil. Além da beleza dos desenhos, o que surpreendia os não-índios era a insistência da presença desses grafismos. Os índios sempre pintavam o próprio corpo e também decoravam suas peças utilitárias.

No entanto, durante muito tempo essas pinturas foram pouco estudadas pelos europeus. Eram consideradas apenas uma atividade lúdica, sem maiores significados dentro da cultura indígena a não ser o mero prazer da decoração. Há algumas décadas, estudiosos perceberam que o grafismo dos povos indígenas ultrapassa o desejo da beleza, trata-se sim, de um código de comunicação complexo, que exprime a concepção que um grupo indígena tem sobre um indivíduo e suas relações com os outros índios, com os espíritos, com o meio onde vive...

Esse boletim fala um pouco sobre esses desenhos indígenas. Para que servem alguns deles e algumas histórias que os índios contam sobre sua arte.

 

 

2. Significado de alguns Grafismos

"Por quê você pinta seu corpo ?" - perguntou um missionário europeu a um índio.

"E você ? Por quê não se pinta ? Quer se parecer com os bichos ?" - respondeu o índio

 

Esse é um diálogo real, acontecido no século XVIII e registrado pela história. O indígena deu um dos significados, talvez o mais básico, de suas pinturas: diferenciar-se de outros seres da Natureza. O índio pode se pintar. Quando quiser. Nenhum outro animal consegue modificar sua aparência, usando meios que não o próprio corpo, apenas pelo desejo de se embelezar, ou se destacar dos demais.

Os índios, e também todos os homens de qualquer etnia, conseguem opor sua opção cultural à realidade da Natureza. Nas discussões em que os filósofos questionam o que diferencia o homem dos outros animais, a resposta alcança sempre a arte. Somente os homens criam obras artísticas; sejam pinturas, músicas, histórias, etc...

Em resumo: quando o índio pinta seu próprio corpo, ele demarca seu lugar dentro de seu mundo. E o faz com rara beleza. O antropólogo Darcy Ribeiro escreveu que o corpo humano é "a tela onde os índios mais pintam e aquela que pintam com mais primor".

Para certas etnias, os grafismos possuem uma outra função: indicar se o indivíduo pertence a um determinado grupo dentro da sociedade indígena.

Alguns povos indígenas dividem suas aldeias em duas metades. Qualquer índio desses povos pertence a uma metade ou à outra, e fazer parte de cada uma dessas metades implica em direitos e deveres específicos. Os índios Xerente que vivem no norte do estado do Tocantins são um exemplo. Eles dividem sua sociedade nas metades Sdakrã, identificada com a Lua; e metade Siptato, identificada com o Sol. Cada metade possui um grafismo específico: os índios Sdakrã pintam o corpo sempre com traços horizontais, enquanto os índios da metade Siptato usam apenas os traços verticais. Cada uma dessas metades é dividida em vários clãs diferentes e para cada clã há também um padrão de grafismo exclusivo: traços finos, traços grossos, círculos, etc... Isso significa que um Xerente, ao pintar o próprio corpo, identifica-se perante os outros membros de sua comunidade.

Os índios Kadiwéu, do Mato Grosso do Sul, também utilizavam os grafismos de seu povo como identificações internas em sua sociedade. São desenhos tão elaborados, que chamaram a atenção de vários pesquisadores. Até o início do século XX, os grafismos eram tatuados no corpo. Hoje em dia são pintados com o suco do jenipapo principalmente nas celebrações. Abaixo está a foto de uma índia Kadiwéu e ao lado uma cerâmica desse povo. Os padrões usados na pintura corporal são utilizados também na decoração dos objetos feitos pelos índios.


à dir.: índia Kadiwéu (rio Nabileque) - foto da Coleção Boggiani/1892, publ. Dr. R. Lehmann-Niitsche
(retirada do livro Arte e Técnicas Kadiwéu, de Jaime Garcia Siqueira Jr.)

à esquerda: cerâmica feita por índia Kadiwéu em 2004

 

Enquanto índios de alguns grupos utilizam os grafismos pintados no corpo para se diferenciar dentro de sua sociedade; os não-índios utilizam roupas para essa mesma função. Sabemos que alguns homens são militares ou religiosos pelas roupas que usam. É comum também que pessoas com muito dinheiro usem roupas caras, para que sejam reconhecidas como abastadas.

Por fim, uma terceira função para os grafismos indígenas é a identificação étnica de cada grupo. As pinturas que os índios do Xingu usam no corpo e em seus objetos, são completamente diferentes dos grafismos de índios que vivem no norte do Amazonas, por exemplo. É possível com um pouco de prática, reconhecer a qual etnia pertence algum objeto a partir da decoração do mesmo.

A seguir vão peças feitas por índios do Xingu. Apesar dos desenhos serem diferentes, é possível verificar um padrão gráfico semelhante neles:



Objetos de índios do Xingu, em sentido horário: espátula de madeira
usada para preparar alimentos, cerâmica para assar beiju, panela
em forma de tartaruga e máscara representando espírito

 

A seguir, quatro cumbucas de cerâmica, cada qual feita por uma etnia diferente, com seus grafismos tradicionais:



em sentido horário a partir do alto à direita: cerâmica dos índios Asurini, do Pará;
dos índios Mehinaku, do Parque do Xingu/Mato Grosso;
dos índios Kadiwéu, de Mato Grosso do Sul e
dos índios Wai Wai, do Pará

 

Para saber mais:
- Grafismo Indígena: Estudos de Antropologia Estética ; de Lux Vidal
- Arte e Técnicas Kadiwéu ; de Jaime Garcia Siqueira Jr.
- Arte Indígena, Linguagem Visual ; de Berta G. Ribeiro

 

 

3. Tuluperê: Mitos dos índios Wayana-Apalay

Os índios Wayana-Apalay vivem no norte do Pará, na região de fronteira entre Brasil, Suriname e Guiana Francesa.

Eles contam que antigamente, os Wayana viviam separados dos Apalay. Eles tentavam se encontrar e nunca conseguiam. Um grupo pensava que o outro matava seus índios, porquê nunca alguém havia conseguido voltar para contar a história. Todos desapareciam próximo ao igarapé Axiqui.

Um dia os guerreiros Wayana estavam na região, e viram uma enorme arara azul sair do fundo das águas. O pássaro desapareceu na serra do Axiqui. Em seguida saiu um monstruoso lagarto de duas cabeças do igarapé, chamado Tuluperê. Uma das cabeças só comia índios Wayana e a outra cabeça comia os Apalay.

Os índios Wayana lutaram com o lagarto e o mataram. Foram então à aldeia dos Apalay para contar o caso. Os homens Apalay voltaram ao igarapé e viram o monstro, que já estava afundando na água.

Na pele do lagarto de duas cabeças estavam desenhos, que os índios passaram a copiar em seus objetos. Os Wayana utilizam maior quantidade de padrões diferentes, isso porquê viram o monstro inteiro enquanto lutavam. Por outro lado, os desenhos feitos pelos Apalay têm mais qualidade, porquê esses índios viram o lagarto parado e tiveram tempo de aprender melhor seus grafismos.


cesto Wayana-Apalay,
com desenho representando
o lagarto de duas cabeças

 

 

4. Kusiwa: a Arte dos índios Wajãpi

Kusiwa significa "o caminho do risco". É o nome dado a uma tradição gráfica dos índios Wajãpi, moradores da área de fronteira entre o Brasil e a Guiana Francesa.

O padrão Kusiwa é utilizado pelos Wajãpi, na pintura corporal e na decoração dos objetos feitos por eles: cerâmica, cestaria, tecidos, etc... Consiste na combinação infinita de alguns motivos básicos de desenho. Esses motivos básicos são identificados, em geral, com nomes de animais como: cobra, espinha de peixe, borboleta, casco de jabuti, etc... A complexidade na associação de motivos diferentes, em uma mesma superfície, é o que é valorizado pelos índios. A criatividade e o conhecimento do artista são medidos por sua capacidade em construir intricadas tramas a partir dos grafismos básicos.

 


Peixe usado em veste ritual dos índios Wajãpi,
decorado com os motivos "kusiwa"


Há várias versões sobre a origem dos motivos Kusiwa. Um dos mitos refere-se a um rapaz que assistiu à dança das sombras dos mortos e trouxe da festa um bastão decorado onde estariam alguns dos desenhos. Outra versão da história registra que esse rapaz copiou os desenhos das faces das mulheres que estavam nessa mesma dança. Um dos padrões básicos, chamado urupe arabekwa, foi trazido por uma viúva que foi procurar seu falecido marido no céu. As diferentes versões estão ligadas à idéia que quando um Wajãpi decora seu corpo com determinado padrão, ele sofre uma metamorfose, que o aproxima aos espíritos, animais, etc...

Em 2003, a UNESCO conferiu à arte Kusiwa, o certificado de Patrimônio Imaterial da Humanidade. Foi a segunda edição do prêmio e a primeira manifestação indígena do Brasil a receber esse certificado. Na ocasião, durante uma cerimônia em Brasília, o líder Kumaré Wajãpi discursou assim:

"Esse Kusiwa é tradicional. Até agora nós usamos Kusiwa. Não estamos esquecendo. É como nosso amigo falou agora. É muito forte a cultura Wajãpi. E outro também quero dizer: é muito preconceito com Wajãpi. Porquê o homem branco, se o Wajãpi pinta o corpo, acha é ruim. Cabelo comprido, acha feio. Então é muito preconceito. Essa coisa nós não queremos mais assim. Nós queremos respeito. Então como nós colocamos, essa pintura é como nosso avô antigamente usava. É importante para a gente e até futuramente nós vamos usar isso. Nossos velhos lembram sempre disso."

 

Para saber mais:

- site da UNESCO - http://www.unesco.org/culture/intangible-heritage/masterpiece.php?id=54&lg=en
- Kusiwa: pintura corporal e arte gráfica Wajãpi ; de Dominique Tilkin Gallois
- Exposição: "Tempo e Espaço na Amazônia: Os Wajãpi" ; no Museu do Índio da cidade do Rio de Janeiro ; endereço: rua das Palmeiras, 55 (há previsão que essa exposição fique em cartaz até dezembro/2006)






5. Atualizações no site Iandé

 

A.) Foi acrescentada na página "Pensamento Indígena", uma frase da professora indígena Margarida Tapeba sobre a preservação da cultura e um depoimento da primeira índia do povo Yawanawá a tornar-se pajé

B.) Na seção de música indígena, foi acrescentado o disco com músicas dos índios Tapeba, de Ceará

 

C-) Foram acrescentadas também, algumas peças no Museu Virtual da loja Iandé.


As fotos de cada peça estão nos links a seguir:

- Cachimbo de madeira, dos índios Kayapó

- Chocalho de amarrar, dos índios Manoki

- Máscara representando o espírito Quapan, dos índios Mehinaku

- Cerâmica para produzir bebida alcoólica, dos índios Tukano

- Cerâmica criada por Margarida Chaves, do vale do Jequitinhonha

 
 
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