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Boletim de Histórias - número 9
Índice 1. Introdução:
XII Mostra de Cultura Indígena de Campinas
1. Introdução: XII Mostra de Cultura Indígena de Campinas A prefeitura de Campinas, cidade do estado de São Paulo, promove até o dia 12 de maio a décima segunda edição de sua, já tradicional, Mostra de Cultura Indígena. Nesse ano, são dois os principais temas: os 40 anos do Programa de Saúde da Escola Paulista de Medicina/UNIFESP no Parque Indígena do Xingu; e também uma exposição de objetos que auxiliam na subsistência dos índios, reunidos sob o título de "O Cotidiano Indígena". O nobre trabalho da Escola Paulista de Medicina é ilustrado em uma dezena de painéis que contam a história desse projeto. É possível ver fotos, instrumentos médicos, teses e preciosas fichas médicas de alguns índios do Xingu. É interessante comentar que as fichas são controladas por números. Há um costume de índios de algumas etnias, que mudam o próprio nome quando atingem certa idade ou quando passam por determinadas situações. São registrados nas fichas médicas, os diversos nomes de cada indivíduo. Já na exposição de objetos, foram reunidas peças de cozinha, cerâmicas, cestos de guardar e carregar alimentos, bancos, redes, roupas, bolsas, instrumentos musicais e objetos para caçar e pescar. São peças escolhidas do acervo da FUNAI de São Paulo, e da coleção de Rubem Pereira de Ávila, um entusiasta das culturas indígenas, e que é o principal responsável pela organização dessa Mostra, e também das anteriores. Vale muito à pena ir até Campinas ver esses objetos. Há peças bastante raras como as flautas, cerâmica e zarabatana dos índios Tukano; ao lado da delicada beleza da cerâmica dos índios Marubo e a variedade de desenhos das redes e bancos. É um deleite observar, por exemplo, várias redes lado a lado, cada qual com uma técnica de fabricação e padrões de grafismo diferentes. É muita beleza reunida. Para aqueles que moram muito longe da cidade, que não poderão ver tudo isso pessoalmente, há algumas fotos da exposição no fim desse boletim. Parabéns aos curadores: Rubem Pereira de Ávila e Joselene de Souza Pinto, de Campinas; e Neusa Haruê Yamanaka da FUNAI de São Paulo. Montaram uma das mais belas exposições de arte indígena vistas no Brasil há um bom tempo.
Para saber
mais:
2.
Programa de Saúde da Escola Paulista de Medicina/UNIFESP "...esse doutô é mão santa. Chegô lá, foi num 'zip-zip' e 'curô' a doente. Ela inté tá lá contente, se rindo."
Orlando Villas-Bôas conta que na década de 60, no início da criação do Parque Indígena do Xingu, no Mato Grosso; os índios sofriam graves problemas de saúde. Ele testemunhou uma epidemia de sarampo que matou 114 índios em 30 dias. O atendimento médico no Parque era feito por visitas esporádicas de médicos da FAB. Em uma ocasião, chegou ao posto de vigilância do parque, uma índia passando muito mal. Por coincidência instantes depois pousou no local um avião da aeronáutica. Mal a porta do avião se abriu, Orlando perguntou: "Tem médico aí ?" Um cidadão se apresentou na porta: "Roberto Baruzzi, da Escola Paulista de Medicina". Um trabalhador levou o doutor Baruzzi até a índia. Meia hora depois voltam os dois e o trabalhador contou o que aconteceu, usando as palavras escritas logo acima, no início desse capítulo. Algum tempo depois desse primeiro encontro, o doutor Roberto Baruzzi resolveu organizar um grupo para ir ao Xingu. Nascia o Programa de Saúde, onde a Escola Paulista de Medicina passava a dar assistência aos índios do Parque. O sertanista Orlando Villas-Bôas escreveu, muito tempo depois, que o programa já teria se extinguido se não fosse a incansável atuação de Baruzzi no sentido de mantê-lo vivo. A atuação da Escola Paulista de Medicina reduziu em muito a mortalidade no Parque. Houve um período de três anos, em que nenhum índio morreu no Xingu. Uma das características do Programa, era o respeito à figura do pajé. As doenças eram divididas em "doenças de branco", curadas pelos médicos; e "doenças de índios", tratadas somente pelos pajés. Na década de 90 iniciou-se a formação de agentes de saúde entre os índios, para atuarem em Medicina Preventiva dentro de suas aldeias e logo em seguida um programa de formação de auxiliares de enfermagem, que já capacitou dezenas de índios para a função. Em 2005 organizou-se uma exposição na Escola Paulista de Medicina para comemorar os 40 anos do Programa. A abertura do evento foi numa segunda-feira de agosto, noite de um ventinho frio que desencorajava sair de casa. Mesmo assim, umas 300 pessoas espremeram-se no Anfiteatro da Escola para homenagear o doutor Roberto Baruzzi. Muitos médicos que passaram pelo Xingu, e ouviam as palavras com olhos cheios de saudades, e a compreensão que participaram de algo que mudou suas vidas. A maioria dessas pessoas esperou um bom tempo em fila, para ganhar um autógrafo do doutor Baruzzi, no livro que ele organizou junto com a antropóloga Carmen Junqueira, e que era lançado naquela noite. Ele conversava com todos e sorria como sempre, um sorriso de gentileza e paciência infinitas. Nesse livro há um texto que Orlando Villas-Bôas havia escrito, na comemoração dos 35 anos do programa. Um fragmento desse texto: "Na verdade esses médicos, além de exercerem medicina, fizeram história. Eles hoje se incorporaram ao que é o Xingu. Trazem consigo experiências que apenas o convívio com aquela gente pode dar."
Para saber
mais:
3.
O Aviso da Onça É uma pena que não registrei o nome dele. É médico, na cidade de São José dos Campos, no estado de São Paulo. Participou do Programa de Saúde da Escola Paulista de Medicina há uns 25 anos. Nos conhecemos em uma exposição de cerâmica indígena, realizada em São José em 2005. Ele olhava as peças com nostalgia e contou histórias deliciosas dos meses em que esteve no Xingu. Eu lhe perguntei se ele havia sentido algum choque entre as convicções racionalistas de sua profissão e a espiritualidade indígena. O médico me respondeu após um breve silêncio, que "havia visto coisas que até hoje não sabe explicar". Em uma das histórias que contou, ele disse que foi acordado na madrugada, pouco antes do amanhecer por um rugido de onça, bem próximo à aldeia. Disse que é um som de arrepiar os mais valentes. Um tempinho depois a aldeia despertou e enquanto ele tomava café, um índio mais velho veio conversar. Perguntou: "Ouviu a onça ?". Ouvi - disse o médico. Prosseguiu o índio: "Ela veio avisar que vai morrer alguém aqui hoje." O médico saiu em disparada. Ele já havia aprendido a dar atenção à sabedoria dos índios, mas se recusava a ver seus doentes morrendo ali. Um de seus pacientes estava mesmo muito mal e o doutor conseguiu em algumas horas que o índio fosse transferido para um hospital na cidade. Pensou consigo: "Morrer aqui na minha mão, não vai não !" Já no meio da tarde, um barco desceu pelo rio. Trazia o corpo de um índio, que morava um pouco afastado da aldeia e que havia sofrido um acidente. Morrera. Enquanto o barco se afastava, o doutor teve de ouvir o velho índio com quem conversara pela manhã, lembrando do aviso da onça.
4. Exposição:
O Cotidiano Indígena
Onde vivem as
etnias citadas acima:
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Iandé
- Casa das Culturas Indígenas
: rua Augusta 1.371 , loja
07 - Galeria Ouro Velho - São Paulo
Horário de funcionamento: segunda a sexta das 9:00 às 17:30h ; sábado das 9:00 às 14:00h |
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fone:
(11) 3283.4924
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email:
iande@uol.com.br
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